Reserva Biológica do Tinguá – história e natureza, num cenário de riqueza e tristeza




Encravada na Serra do Mar, no Sudeste Brasileiro, a Reserva Biológica do Tinguá vem cumprindo papel fundamental ao longo de nossa história. Sua área territorial compreende 26 mil hectares de Mata Atlântica, fazendo limites com Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Petrópolis e Miguel Pereira. Ela é identificada como importante bacia produtora de água potável, desde os tempos do Império. Foi em 1880 que o imperador D. Pedro II inaugurou a rede de captação que levou, em poucas semanas, a água das nascentes de Rio d’Ouro, Xerém e Tinguá até a capital, o Rio de Janeiro, que padecia de uma enorme seca provocada pelo desmatamento da Floresta da Tijuca. O engenheiro Paulo de Frontin foi o responsável por essa façanha, realizada pelo braço escravo.

Anos após a queda da monarquia, em 1941, criou-se a primeira unidade de proteção ambiental que se tem notícia naquela região. O governo Getúlio Vargas decretou a Serra do Tinguá como “Floresta Protetora da União”, tendo em vista a proteção integral de seus recursos hídricos. Um total de 12 aquedutos e represas de captação dão a noção exata da grandeza e importância dela para o abastecimento, atualmente cobrindo a Baixada Fluminense e aproximadamente 60% da população do Rio, como bacia contribuinte do rio Guandu.

Em 1989, após expressiva mobilização social organizada e liderada por ambientalistas e moradores da região, com o apoio de universidades como a UFRRJ e a UERJ, além de sindicatos e entidades da sociedade civil da Baixada Fluminense, o governo José Sarney, através de um decreto federal datado de 23 de maio de 1989, transformou o Tinguá em Reserva Biológica, cujo objetivo é a proteção de amostra representativa da Mata Atlântica e demais recursos naturais nela contidos, com especial atenção para os recursos hídricos, além de proporcionar o desenvolvimento de pesquisas científicas e educação ambiental.

Tal proposta aprovada pelo governo acabou por tornar a Rebio-Tinguá a primeira e única Unidade de Conservação do país criada a partir da vontade e da pressão popular, expressa no movimento intitulado “Pró Reserva Biológica do Tinguá” ocorrido há 21 anos e que reuniu 10.000 assinaturas num abaixo-assinado encaminhado ao governo. Um feito inédito. Já naquele momento, o povo rechaçava a idéia de um “parque nacional” na região, proposta patrocinada por grupos econômicos interessados em transformar a floresta do Tinguá num pólo ecoturístico.

Duas razões básicas justificaram a opção da população a pela Reserva Biológica: a primeira foi a questão dos recursos hídricos, representada pela presença, em seu interior e no entorno da UC (unidade de conservação) das represas e aquedutos da época do Império, e que até hoje funcionam em perfeitas condições. Por seu formidável potencial hídrico, a Rebio-Tinguá foi classificada, em 1993, como Patrimônio Natural da Humanidade, na categoria de Reserva da Biosfera, pelas Nações Unidas, via UNESCO. A outra justificativa não menos importante referia-se à presença de duas linhas de oleoduto e uma de gasoduto da Petrobras, que atravessam grande parte do subsolo da floresta, constituindo-se em grave risco de incêndio e poluição.

Na época, os defensores da Reserva Biológica asseguravam que não eram contrários à visitação pública naquela região, desde que fosse para fins de educação ambiental. Até hoje, pesquisadores, alunos de diversas escolas, grupos familiares e pessoas comuns têm podido visitar a Reserva, com expressa permissão das autoridades ambientais daquela UC, hoje subordinada ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgão do governo federal que sucedeu o Ibama na gestão de parques e reservas do país.

Outros aspectos importantes também confirmaram e reforçaram a tese da necessidade de transformar o Tinguá em área de uso restrito. A descoberta do menor anfíbio do mundo, o sapo-pulga, feita no interior da Reserva pelo pesquisador Eugenio Izecksohn, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A madeira tapinhoã, a bromélia e o mineral tinguaíto, endêmicos na região, também comprovam a exuberância e a riqueza de sua biodiversidade. Muitas espécies em Tinguá ainda não foram catalogadas pela Ciência, e outras já se encontram em processo de extinção, como a onça parda.

Já eram comuns, desde antes de sua criação, as práticas criminosas contra o meio ambiente dentro e no entorno da reserva. Caçadores, palmiteiros, ladrões de areia, pedreiras clandestinas, passarinheiros e carvoeiros sempre marcaram presença de forma nociva, tanto no processo de saque e predação dos recursos naturais como na destruição da flora e fauna locais, incluindo-se nesse rol algumas preciosas vidas humanas covardemente ceifadas. O maior exemplo nesse caso foi o ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro, assassinado covardemente por um caçador em 2005 próximo a um dos portões de acesso à Rebio-Tinguá. SeuJúlio, como era carinhosamente chamado na comunidade de Tinguá, era um militante ambientalista e aguerrido defensor da região, que não dava tréguas aos agressores da floresta, denunciando-os às autoridades policiais e ao Ministério Público. Pagou com a vida por seu idealismo e amor extremo à Rebio-Tinguá.

Decorridos 21 anos de sua criação, o inventário de perdas e o quadro de caos e abandono é o cenário dominante na unidade, no que tange à sua proteção e conservação. De lá pra cá, a falta de políticas públicas para o meio ambiente tem sido a tônica dos governos que se sucedem, demonstrando pouca ou quase nenhum interesse ou motivação pela questão ambiental. A exemplo das demais unidades de conservação do país, a Rebio-Tinguá sofre com a falta de recursos próprios, uma vez que não possui autonomia financeira e administrativa, estando dependente da verba mensal repassada pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos. A unidade dispõe de apenas 4 agentes para o trabalho de fiscalização e combate aos ilícitos ambientais, com viaturas circulando em estado precário. Há carências também de equipamentos de radiocomunicação, tornando ainda mais difícil e complicada a tarefa de proteger um patrimônio que é de toda a Humanidade.

Recentemente, em janeiro desse ano, uma luz acendeu-se na escuridão do descaso e da falta de compromisso governamental. O Ministério do Meio Ambiente nomeou o policial Josimárcio Campos de Azevedo como o novo chefe da Rebio-Tinguá. Coincidentemente, no mesmo momento em que rumores dão conta de que o governo pretende recategorizar a Reserva Biológica do Tinguá, para então transformá-la em parque nacional, visando atender àqueles mesmos interesses econômicos de 21 anos atrás, que se levantaram de seus túmulos para voltar a assombrar a reserva e ameaçar sua riqueza biológica e hídrica.

Josimárcio, que já atuou como policial militar lotado no DPO de Tinguá, parece não ter se impressionado com o fato. Prova disso é que não vem dando trégua aos inimigos da natureza, efetuando prisões de caçadores, palmiteiros e passarinheiros que agiam impunemente na reserva e em seu entorno. Armas e armadilhas de caça, como trabucos e espingardas, vem sendo diariamente apreendidas, num trabalho digno de elogios e aplauso da população. Cumpre registrar também a ajuda que tem recebido do Batalhão da PM florestal e da delegacia de Polícia Federal em Nova Iguaçu, na pessoa do delegado Alexandre Saraiva, outro que vem se destacando no trabalho de proteção e guarda da floresta. Para breve, está prevista a instalação de um posto avançado da PF na Reserva, próximo à Xerém, em Duque de Caxias. Além do esforço na tarefa de patrulhamento, o novo chefe da UC tem se dedicado a reativação do Conselho Consultivo da Rebio-Tinguá, órgão criado por lei para assessorar e ajudar na gestão da UC. Entre suas tarefas, cabe ao conselho a implantação do Plano de Manejo, que vai viabilizar os recursos materiais e humanos para que a Reserva do Tinguá saia do papel.

Ambientalistas ligados ao Fórum Ecossocial da Baixada Fluminense vem atuando com insistência para anular as manobras de bastidores que vem sendo tramadas para recategorizar a reserva. O ex-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, vem sinalizando e trabalhando de forma mais ou menos ostensiva em favor da proposta pró-parque, no âmbito do Ministério do Meio Ambiente.

Uma das formas que os defensores da reserva encontraram para combater a idéia foi o recolhimento de assinaturas em abaixo-assinado, da mesma forma que há 21 anos. Primeiramente, em papel, e mais recentemente na forma on line, onde se pode assinar digitalmente em http://www.petitiononline.com/tingua/petition.html

A Reserva Biológica do Tinguá, como expressão e símbolo de uma conquista popular, segue seu destino. A mesma polêmica que cercou sua criação agora está de volta, muito por culpa da gestão anterior da unidade, que não soube ou não quis dar respostas às imensas demandas sociais e ambientais acumuladas ao seu redor. Podemos, sem medo de errar, chamá-la de nossa Amazônia do Sudeste, o nosso pulmão verde da Baixada Fluminense.

Poucos são capazes de avaliar a real dimensão de sua importância no cenário de história, beleza natural e tristeza, reinantes naquele lugar.



Ricardo Portugal

Jornalista e ambientalista do Fórum Ecossocial da Baixada Fluminense




Resumo do artigo “REBIO do Tinguá: história e natureza num cenário de riqueza e tristeza”, do jornalista e ambientalista Ricardo Portugal


Paulo Clarindo

AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL



A área da REBIO do Tinguá possui 26 mil hectares de Mata Atlântica, fazendo fronteira com os municípios de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Petrópolis e Miguel Pereira.

O jornalista e ambientalista Ricardo Portugal acrescenta que os mananciais de Tinguá e Xerém representam “...importante bacia produtora de água potável desde os tempos do Império. Foi em 1880 que o Imperador D. Pedro II inaugurou a rede de captação que levou, em poucas semanas, a água das nascentes de Rio d’ Douro, Xerém e Tinguá até a Capital, o Rio de Janeiro, que padecia de uma enorme seca provocada pelo desmatamento da Floresta da Tijuca...” (PORTUGAL, Ricardo. Jornal de Hoje, de 03/8/2010). A façanha da busca pela água para dessedentar o carioca coube aos engenheiros André Gustavo Paulo de Frontin e Raimundo Teixeira Belfort Roxo no episódio que ficou conhecido como “a água em seis dias”.

1041 – A Serra do Tinguá é classificada pelo governo de Getúlio Vargas como “Floresta Protetora da União”, “...tendo em vista a proteção integral de seus recursos hídricos. Um total de doze aquedutos e represas de captação dão a noção exata da grandeza e importância dela para o abastecimento, atualmente cobrindo a Baixada Fluminense e aproximadamente 6O% da população do Rio, como bacia contribuinte do rio Guandu...”

A REBIO do Tinguá foi estabelecida em 23/5/1989, durante o governo de José Sarney. Nas palavras de Portugal, foi “...a primeira e única unidade de conservação do país criada a partir da vontade e da pressão popular...” , tendo em vista a mobilização social ocorrida há 21 anos – o “Pró Reserva Biológica do Tinguá”, que resultou num abaixo assinado contendo dez mil assinaturas entregue ao governo federal. Um ato de heroísmo de ambientalistas da Baixada Fluminense até hoje lembrado e comemorado.

Ricardo Portugal comenta a respeito da existência àquela época de “...grupos econômicos interessados em transformar a floresta do Tinguá num pólo ecoturístico”, tendo em vista a proposta da criação de um parque nacional na região.

1993 – A REBIO do Tinguá é classificada pela UNESCO “Patrimônio Natural da Humanidade, na categoria de Reserva da Biosfera”.

Os defensores daquela unidade de conservação como REBIO não seriam contrários à visitação pública, “...desde que fosse para fins de educação ambiental”.

O menor anfíbio do mundo – o sapo-pulga – foi identificado na REBIO do Tinguá pelo pesquisador da UFRRJ, Eugênio Izecksohn, da mesma forma que “...a madeira tapinhoã, a bromélia (?) e o mineral tinguaíto são endêmicos na região” compreendida pela reserva.

A falta de políticas públicas para o meio ambiente: não há “interesse ou motivação pela questão ambiental”.

Em meio ao caos, à desordem e à ausência de apoio do governo federal, no entender de Portugal, eis que surge uma luz no fim do túnel, com a nomeação do policial Josimarcio Campos de Azevedo para o cargo de chefe da REBIO do Tinguá. A chegada de Josimarcio parece trazer um alento para a incansável luta pela e a manutenção da integridade física daquela unidade de conservação. Participando mais de perto dos ambientalistas que se dedicam a essa causa nobre, percebe-se que a presença, agora, de uma pessoa com mais desenvoltura e preocupada com os problemas da REBIO do Tinguá, parece trazer consigo a esperança e a motivação para resolução de impasses e dificuldades há anos relegados a terceiro plano.

A reativação do Conselho Consultivo da REBIO do Tinguá: “...entre sua tarefas, cabe ao conselho a implantação do Plano de Manejo, que vai viabilizar os recursos materiais humanos para que a Reserva do Tinguá saia do papel.
Fazenda São Bernardino: abandono e depredação
Fazenda São Bernardino em 1977

Prezados amigos e apaixonados pela Fazenda São Bernardino.

No último sábado,dia 07/8, durante a Reunião para composição do Conselho Consultivo da REBIO do Tinguá, tomamos conhecimento de uma denúncia dando conta do furto de tijolos das ruínas da Fazenda São Bernardino. Além disto, a pessoa que nos relatou o fato foi ameaçada de morte.

Diante do acontecimento, o que nos cabe no momento é acionar a Polícia Federal em Nova Iguaçu, o Ministério Público Federal e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN para que tomem as medidas cabíveis. Não podemos ficar calados diante de mais uma agressão a um importante bem cultural da Baixada Fluminense. Enquanto a família Gavazzi briga na Justiça contra o Poder Público Municipal pela posse definitiva daquelas ruínas e seu território, além do pedido de indenização, o monumento permanece no mais completo abandono e esquecimento. A falta de cultura e de educação do povo contribui para tombar no sentido literal da palavra o que nos restou daquela que fora a mais imponente propriedade no território da outrora Vila de Iguassu, berço do atual município de Nova Iguaçu e de alguns outros da Baixada Fluminense. Infelizmente, parece que estamos assistindo passivamente a sua derrocada final.
Ruínas da Fazenda São Bernardino-julho de 2010-CLARINDO

Cordialmente,

Paulo CLARINDO
AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL
DESRESPEITO À MEMÓRIA SUBURBANA





Matéria assinada pelo jornalista Luiz Ernesto Magalhães - O GLOBO de 03/08/2010


Prezados amigos.

Lamentavelmente fomos pegos de surpresa com a notícia acima dando conta do DESTOMBAMENTO, DESAPROPRIAÇÃO e DEMOLIÇÃO de antigos imóveis localizados no Largo do Campinho, bairro de mesmo nome, Subúrbio da Cidade do Rio de Janeiro. Ainda não sabemos se os imóveis em discussão já foram destombados pelo senhor Prefeito. Apesar deste ter o poder de destombar qualquer imóvel em nome do progresso, tem necessariamente que encaminhar suas intenções ao Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural, como determina a legislação de patrimônio cultural. Se, por outro lado, Eduardo Paes - o prefeito -, o fizer à revelia, estará cometendo um desrespeito ao CMPPC e à legislação específica, o que configura ato inconstitucional. É o que nós entendemos no momento.

O Conjunto Arquitetônico do Largo do Campinho, datado de 1914, segundo o Guia do Patrimônio Cultural Carioca: Bens Tombados 2008, "...em estilo eclético, teve seu esplendor no início do século passado, evidenciado pelo poder comercial local, principalmente pelo desenvolvimento do Mercado do Campinho, que nesses primeiros anos constava como líder na distribuição e venda da maioria dos produtos agropecuários da cidade. A imponência dos prédios representa simbolicamente uma época de grande prosperidade"(p.180). O referido conjunto, situado entre o números 3 e 21 do Largo do Campinho, foi tombado pelo Poder Público Municipal através do Decreto nº 24.560, de 25/8/2004, fruto da luta e iniciativa do abnegado pesquisador de Madureira CARLOS ALBERTO MEDA, que havia recomendado por escrito ao então prefeito Cesar Maia a proteção àquele conjunto.

Outro bem cultural protegido pelo mesmo decreto municipal e também ameaçado de DESTOMBAMENTO, DESAPROPRIAÇÃO e DEMOLIÇÃO é a antiga ESTALAGEM DO CAMPINHO, localizada no nº 452 do Largo do Campinho. Apesar de descaracterizada, remonta ao período colonial. Ali teria se hospedado por diversas vezes Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes durante suas vindas ao Rio de Janeiro.

Em completa situação de abandono e localizado nas proximidades do Largo do Campinho, na avenida Ernani Cardoso, está o imóvel denominado "ANTIGO FORTE NOSSA SENHORA DA GLÓRIA DO CAMPINHO", ocupado até bem pouco tempo por uma unidade militar do Exército Brasileiro. Data o mesmo do século XIX (1822 ou 1823), tendo a possibilidade de já ter funcionado como "fortim improvisado"  no século XVIII. Este imóvel, apesar da sua importância histórica - no final do século XIX funcionou no local o Imperial Laboratório Pirotécnico e, já na República Velha, o Laboratório Pirotécnico do Exército -, não foi tombado por nenhum órgão público, apesar dos insistentes pedidos do GRUPO DE PESQUISA DO SUBÚRBIO CARIOCA.

Em virtude das ameaças, desrespeito e desprezo ao patrimônio cultural e à memória dos subúrbios do Rio de Janeiro (o tratamento é diferenciado em relação ao patrimônio cultural da Zona Sul e do Centro do Rio!), conclamo a todos numa verdadeira união e no apoio para impedir que o mesmo Poder Público Municipal que tombou o Conjunto Arquitetônico do Largo do Campinho o destombe sob o pretexto de que no local será construído o tal  "TRANSCARIOCA" (corredores excluisivos ligando a Barra da Tijca ao Aeroporto Internacional do Galeão), um dos primeiros passos visando preparar a cidade para a Copa do Mundo de 2014. Houve alguma Audiêndia Pública para tratar do assunto?  O Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural foi ouvido como determina a legislação de patrimônio específica? As comunidades afetadas pelo projeto foi consultada a respeito? Em se tratando de obras de grande porte, serão comunicados e consultados o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB/CAPÃO DO BISPO), visto que aquela área, por sua proximidade ao antigo Forte do Campinho e à Igreja de N. S. da Conceição do Campinho (também tombada pela municipalidade), pode apresentar vestígios arqueológicos (artefatos e estruturas), além do fato de que a Avenida Ernani Cardoso e a Estrada Intendente Magalhães representam parte do trajeto da outrora Estrada Real de Santa Cruz?

Comunicaremos o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e a Imprensa escrita e televisada a respeito dos fatos aqui evidenciados.

Cordialmente,

Paulo CLARINDO
AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL
GRUPO DE PESQUISA DO SUBÚRBIO CARIOCA
(21) 9765-6038 ou 2261-0012 ou 3880-4257

Sítio histórico da sede da antiga Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Iguassu
Excursão a Iguaçu Velha, de Luciane Corrêa-blog do Colégio Gonçalves Dias-2008

São João de Meriti, 19 de junho de 2010





De: amigosdopatrimonio@gmail.com


Para: perfildabaixada@bol.com.br, perfilgabriel@ig.com.br



Prezado Gabriel Barbosa.




Neste sábado, dia 19/6, durante a realização de uma aula de campo de História da Baixada Fluminense ministrada pelo professor Antônio Lacerda, visitamos o sítio histórico da sede da antiga Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Iguassu, onde encontram-se as ruínas da Igreja de N. S. da Piedade de Iguassu (torre sineira) e do cemitério da antiga Vila de Iguassu. Constatamos que moradores (ou invasores) atearam fogo no mato próximo da torre sineira. Bem próximo à referida torre há uma grande cerca demarcando uma "propriedade" (invasão mesmo!), cujas terras próximas à cerca sofreram capina. Acontece que toda aquela área representa um grande sítio arqueológico histórico teoricamente sob proteção da legislação de patrimônio cultural (tombamento do perímetro da antiga Vila de Iguassu e Lei nº 3.924 de 1961, “que garante a proteção aos monumentos arqueológicos ou pré-históricos de quaisquer naturezas existentes no território nacional, colocando-os sob a guarda e proteção do Poder Público, e considerando os danos ao patrimônio arqueológico como crime contra o Patrimônio Nacional”). Recomendamos, portanto, como medida preventiva, impedir que novas invasões ocorram; efetuar a limpeza do mato existente no local (devidamente monitorada, pois fragmentos como louças, vidros, cerâmicas tupi-guarani ou neo-colonial, porcelana etc. podem vir a aparecer na superfície do terreno), conforme conversamos anteriormente; sugerimos também que sejam aqueles bens culturais (torre sineira e ruínas do antigo cemitério) protegidos por alguma espécie de cerca, e a realização de um projeto de prospecção e salvamento arqueológicos.



Segue abaixo um resumo da legislação de patrimônio cultural.

 
Patrimônio Arqueológico

O patrimônio arqueológico brasileiro é bem público sob a tutela da União, assim reconhecido e protegido pela legislação, sendo seu gestor o Iphan - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Abaixo facilitamos o acesso à legislação de proteção do patrimônio arqueológico, recomendando sua leitura atenta por parte de profissionais, estudantes e interessados em geral.

O Decreto-Lei n. 15 de 30 de novembro de 1937 define o patrimônio histórico e artístico nacional e dispõe sobre sua proteção, relacionando as atribuições do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.


A Lei nº 3.924 de 1961 garante a proteção aos monumentos arqueológicos ou pré-históricos de quaisquer naturezas existentes no território nacional, colocando-os sob a guarda e proteção do Poder Público, e considerando os danos ao patrimônio arqueológico como crime contra o Patrimônio Nacional.

A Portaria nº 7 do IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, de 1988, estabelece as normas e procedimentos a serem seguidos para o desenvolvimento da pesquisa arqueológica.

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, também possui artigos e capítulos específicos voltados à definição de patrimônio cultural e arqueológico, dispondo sobre sua tutela e em especial sobre as atribuições da União, Estados e Municípios.

Arqueologia de Contrato ou Salvamento


A partir da década de 1980, o patrimônio arqueológico passou a ser contemplado em Estudos de Impacto Ambiental e respectivos relatórios de impacto ambiental. A necessidade de identificar, salvaguardar e proteger o patrimônio arqueológico dos impactos negativos causados por grandes obras de infra-estrutura acabou por criar uma nova frente de atuação para arqueólogos no Brasil, a exemplo do que já vinha acontecendo em outros países. A atuação de arqueólogos nesses grandes projetos tem se pautado pelo disposto na resolução 01/86 do CONAMA , que estabelece que os sítios e monumentos arqueológicos devem ser objeto de consideração para a emissão das licenças Prévia, de Instalação e Operação de empreendimentos que causem impacto significativo ao meio ambiente, assim como na Portaria nº 230 do IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, de 17 de dezembro de 2002, que estabelece diretrizes a serem seguidas para a compatibilização da obtenção de licenças ambientais com a salvaguarda do patrimônio arqueológico. Ver também: Portaria IPHAN n. 28, de 31 de janeiro de 2003 , que determina a obrigatoriedade de estudos arqueológicos em reservatórios de hidrelétricas no momento da renovação de licença de operação.
 
 

Amor e tragédia: história de um senhor 
 de escravos na Vila de Iguassu


Guilherme Peres
Amigos do Patrimônio Cultural






CLARINDO na torre da Igreja de N. S. da Piedade de Iguassu-Foto: Antônio LACERDA

O escritor francês Charles Expilly, desembarcou no Rio de Janeiro em 1853. Aqui chegou em busca de fortuna e, como tantos outros viajantes, veio “fazer a América”. “Descendente de uma família de magistrados, terminou seus estudos de humanidades no Liceu Charlemagne, estudou Direito em Aix e “serviu ao rei”, como então se dizia de quem prestava serviço militar, num regimento de lanceiros”, diz Américo Jacobina Lacombe, prefaciando seu livro editado no Brasil.

Acompanhado de sua esposa Massol d´Audre, que o próprio Expilly dizia ter nascida no Brasil, estudado na França, na Inglaterra, com diploma universitário e experiência na direção de um colégio feminino na Bélgica, tratou logo de apresentar as credenciais de madame Expilly ao Imperador D. Pedro II, oferecendo a assinatura de um contrato, em que esta se propunha ser professora da jovem princesa Imperial. Bem recebidos no palácio, foram convidados a aguardarem durante algum tempo, para o “estudo” do documento proposto.

Torre da Igreja de N. S. da Piedade de Iguassu-março,2010-CLARINDO


O Imperador escreveu ao representante do Brasil em Paris, pedindo informações sobre casal, porém, “estas não confirmaram as declarações do jovem aventureiro”, e em visitas posteriores feitas ao palácio, Expilly “sentiu certo resfriamento na colhida do monarca”.

Frustrado em suas intenções, o francês voltou-se para a instalação de uma escola Normal para a esposa e, mais tarde, uma indústria de fósforo, iniciativas que redundaram em completo fracasso. Esses sucessivos transtornos “resultaram em um sentimento de terrível má vontade para com o país que ele elegera para repartir os lucros de seu talento literário e de sua capacidade de ação. Todas as suas produções vem tisnadas por um espírito de vingança em relação a suposta pátria de sua esposa”.

Entretanto, nem tudo estava “perdido” nessa nação, para o orgulhoso gaulês. Ao referir-se a população negra ou mestiça, registrou em seu livro “Mulheres e Costumes do Brasil”, além de elogios, sua superioridade: “As brancas nas colônias são fisicamente inferiores às crioulas, principalmente as negras minas. Ainda hoje não tenho em vista se não a beleza das formas... o homem que habita a zona equatorial, não pode recusar a sua administração por essas soberbas criaturas, cujo porte esta cheio dessa majestade radiosa que o elogio atribui às rainhas e a poesia, às deusas”.

Iguassu-Cemitério, 2007-wikimedia


NARRATIVA



Na história da inter-relação racial no Brasil estão contidos inúmeros episódios que confirmam o rompimento do preconceito, proveniente de um regime de economia escravocrata e patriarcal. "A miscigenação que largamente se praticou aqui" diz Gilberto Freire, "corrigiu a distância social que de outro modo teria conservado enorme distância entre a casa-grande e a senzala". O latifúndio extremou a sociedade entre senhores e escravos, contrariado pelos efeitos da miscigenação: "A índia e a negra-mina, a princípio, depois a mulata e a cabrocha, tornaram-se concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos" diz mestre Freire.

Iguaçu Velha-Stefano_rj


Em seu livro citado acima, publicado na França após sua volta do Brasil, Charles Expilly continua revelando não só grande atração pelas brasileiras negras e mestiças, como também divulga esse sentimento, mostrado pelos senhores de engenho, conforme a narração de um episódio acontecido nas proximidades da Vila de Iguassú, em que um fazendeiro, dono de escravos chamado Soares, casado e pai de dois filhos, apaixonou-se perdidamente por sua escrava denominada Calixta, rapariga negra de 19 anos. Seus filhos, Casimiro e José, já rapazes, também gostavam da jovem, mas não possuíam capital para comprar ao pai, a sua liberdade.

À mãe de Calixta, o Sr. Soares havia prometido dar a sua liberdade, assim que essa alcançasse a maturidade. A promessa, porém, foi “esquecida”, sem que houvesse uma explicação. Na senzala, a cerva cresceu sabendo que era bonita, tornando-se vaidosa ao ver-se cercada de elogios. Ardilosa, recusava habilmente as propostas de seus pretendentes, esperando as promessas feitas por seu senhor.

“Calixta jurou à velha negra que obteria essa liberdade, mesmo que acarretasse a ruína da família do fazendeiro”, incentivando a rivalidade dos dois irmãos que aspiravam “a exclusividade da posse da escrava. A mulata, fiel ao papel que se impôs amável com ambos, desespera-os igualmente com respostas indecisas”.

- Meu amor é orgulhoso. Tem horror ao cativeiro. Só me entregarei a quem me der liberdade.

“Casimiro e José nada possuem. Não poderão comprar a escrava ao pai”. Louco de paixão, José, o irmão mais velho, passa ameaçar a possuí-la à força”.

– Esta noite, disse ele, minha vontade vencerá o teu desdém.

Casimiro ficou assustado com os planos do irmão, quando Calixta também lhe confidenciou um pedido de proteção.

Ao saber da revelação, José dirigiu-se a Casimiro interpelando-o e fazendo-o desistir de sua intenção. As cartas estavam lançadas e a rapariga a ele escolhera, dizia aquele.

“À noite, Casimiro deveria descer o rio Iguaçu. Ia receber no Rio de Janeiro o pagamento da última colheita de café expedida por seu pai a um negociante inglês”. Este, porem, temeu pela sorte da mulata durante sua ausência, aproximou-se de Calixta e prepôs-lhe fugirem juntos. De posse do dinheiro do pai, poderiam viajar para longe e daria sua liberdade.

Esta, consente em acompanhá-lo e, no momento marcado à noite, aproximam-se do cais. Á luz de candeeiros fumarentos bailavam sombras de barcos entre o alarido de tropeiros, que carregavam as últimas cargas de café do dia. A embarcação ia partir.

Súbito, ecoou um tiro e um grito: - maldito! Casimiro assustado agarra sua amada e se precipitam para o embarque. Naquele momento é agarrado por José ainda nas pedras do porto e os dois se engalfinham às pancadas. Casimiro saca uma faca e José agita um fuzil tentando atingi-lo. Calixta tudo assiste à margem da embarcação.

“- Perjuro! Ladrão! Homem sem fé! Gritava o mais velho. Tua traição não servirá senão para cobrir-te de vergonha. Esta rapariga pertence-me, e prefiro matar-te como um cão a verte de posse dela”.

“_Covarde! Assassino! Exclamava Casimiro. É a mim que Calixta ama. Tenho os direitos de um amor correspondido, e não de um erro ao acaso. Esses direitos defendê-lo-ei até a morte”.

Temendo uma tragédia, Calixta afastou-se dos contendores ocultando-se nas sombras, quando a um sinal, o barco avisou que ia partir, Casimiro pulou para seu interior lembrando-se do dinheiro que tinha que receber para seu pai na capital do Império.

“-Lembre-se que me alvejaste. Ajustaremos as contas quando eu voltar!”, e desapareceu na penumbra do rio, com o ruído dos remos a agitarem as águas.


Igreja de N. S. da Piedade de Iguassu-blog da Paróquia de N. S. da Conceição de Tinguá


A REAÇÃO


Um tropel de cavalos irrompe das sombras acompanhado de escravos armados. Era o Senhor Soares que chegou encolerizado. Recriminou José e mandou açoitar Calixta com vinte chibatadas.

Seu destino estava selado. Dois dias depois foi ao porto e negociou a venda da serva com um traficante de escravos. O novo senhor foi buscá-la. Seu estado físico era desolador. Deitada num canto do interior da senzala sua mãe aplicava compressas com ervas em seu corpo. Ao vê-lo entrar, Calixta com dificuldade ficou de pé, estava pronta para acompanhar seu mais recente amo. Entretanto, sua dignidade de mulher ditava-lhe com orgulho o desejo de vingança.

“Casimiro chegou a tempo de complicar ainda mais a situação. Os dois irmãos desesperados desconheciam os menores sentimentos”. Após prestar contas do dinheiro ao pai, os dois resolveram “opor-se a partida de Calixta”.

“O senhor Soares viu-se, obrigado, por sua vez, a empregar a força para fazer-se respeitar. Atirou por terra, ele mesmo, o mais moço dos filhos, enquanto os escravos subjugavam o mais velho”.

“A mulata, impassível como estivera antes, à beira do rio, não deu uma palavra. Pediu unicamente para beijar sua mãe, e este supremo consolo lhe foi recusado”.

Dirigindo-se ao senhor Soares, esta exclamou: - o senhor me mandou castigar e vendeu-me como um animal, agora se recusa ao meu último consolo que é o colo de minha mãe! O senhor será castigado por Deus!

“-Cadela! Esbravejou o velho Soares, levantando a mão para a escrava”.

Assistindo todo esse drama estavam os dois irmãos, seguros com mãos de ferro pelos escravos do senhor.

“Calixta deitou a Casimiro um longo olhar de tristeza e suplicou com voz trêmula: Senhor esqueça-me. Quanto a mim não o esquecerei nunca, porque vejo que foi quem mais me amou. Depois de ter lançado essa seta envenenada ao coração do jovem, a pérfida criatura tomou a barca onde a esperava o novo senhor”.



Ruínas da Antiga Vila de Iguaçu-Cemoba



TRAGÉDIA


A partir daquele momento, a casa da fazenda tornou-se um inferno; os irmãos e o pai não se falavam. A noite na hora de dormirem, ficavam entrincheirados com os quartos trancados a cadeados. “O senhor Soares fazia guardar a sua porta por um escravo armado”.

Lembrando-se das palavras de Calixta, sua mãe, Constança, presenciava o que seria uma maldição lançada à essa família. “Sobre aquele lar recairia a ruína, a desolação e a morte”.

Deixando sua residência, onde só se transpirava ódio, a senhora Soares mudou-se para o Rio de Janeiro levando Casimiro, o seu filho mais novo, ficando na fazenda José com seu pai.

“Um ano depois da partida da mulata, uma tremenda catástrofe recaiu sobre a família Soares: o fazendeiro e seu filho morreram envenenados. O processo seguido pela justiça não trouxe nenhuma luz sobre esse drama colonial. Constataram-se sem dificuldades os desacordos íntimos que agitavam a família. Mas não se podia acusar José, que era uma das vítimas, nem a senhora nem Casimiro, que viviam longe da fazenda”.

A propriedade ficou entregue ao abandono com a dispersão e ociosidade dos escravos. O capim alto se misturava ao canavial. Sob um telheiro, o bagaço da cana salpicada de moscas, se espalhava em torno do engenho, adormecido no silêncio.

“Casimiro entrou tranquilamente na posse da herança paterna. Seu primeiro ato de proprietário foi dar liberdade à velha Constança. Deu-lhe ainda, como morada, um pequeno barracão mobiliado. Depois partiu para o Rio, na intenção de reaver aquela que jamais pudera esquecer”.

Localizou o traficante que negociara Calixta com seu Soares, mas, esta já não lhe pertencia, fora vendida para um senhor de engenho da província de São Paulo. Viajou para Santos e em seguida aquela cidade. “Mal chegara, encaminhou-se ao engenho que lhe fora indicado, onde encontrou uma família na mais profunda desolação”

O novo senhor e seu filho haviam se apaixonado por Calixta, que em troca de seu amor reivindicava a liberdade. O jovem desesperado falsificou uma “letra” com a assinatura do pai, a fim de obter recursos para a compra da mulata. Além desse crime, aproveitou-se dos pais ausentes, arrombando sua escrivaninha, tirando 1 a 2 contos de réis, e jóias do cofre de sua mãe.

Calixta fugiu com o rapaz para Santos, onde viajaram para o Rio de Janeiro. Pondo-se na captura de seu filho único, do dinheiro, das jóias e da bela mulata, o novo senhor “jurou meter na prisão, caso não conseguisse fazê-la voltar ao cativeiro”.

“Todos esses detalhes, fornecidos a Casemiro pela mãe do rapaz, foram golpes fortíssimos para o seu coração. Havia três meses que Calixta abandonara a província de São Paulo e nunca mais se soubera dela no engenho dos Órgãos”.

A viajem para o Rio foi imediata. Em seu coração repleto de ciúmes planejava reembolsar o suposto proprietário e dar a liberdade a sua amada Não foi difícil encontrar a chácara que ela residia. Estava vazia. A notícia que recebeu, é que ela havia partido para a Europa com um comerciante lusitano.

“Casimiro chorou amargamente”:

- Ela nem sabe sequer o que fiz para a conquistar! Murmurou desesperado. O paulista roubou por sua causa, mas eu...eu...eu Ah! A miserável! Matou-me !”


Vila de Iguaçu-Mapa (1837)


EPÍLOGO


Na fazenda abandonada, a velha Constança alimentava as esperanças de ver um dia Calixta voltar. Mantinha sua humilde casinha sempre limpa, enfeitada de flores na janela. Passava o tempo a vagar pela redondeza e a chamar-lhe o nome. Acreditava ser perseguida por espíritos do fazendeiro e de seu filho José, denunciando em altos gritos, que ambos foram assassinados.

Alertada por um vizinho, a justiça bateu-lhe à porta. Sabedora dessa visita antecipou-se no tresloucado gesto de beber veneno. Contorcendo-se em dores a negra revelou para os oficiais, que havia envenenado o Sr. Soares e seu filho José, a mando de Casimiro:

“O senhor prometeu-me que quando fosse o único dono da fazenda, compraria Calixta, trá-la-ia para casa e nos daria a ambas a liberdade. Ora, eu que já tinha sido enganada pelo senhor Soares, e não podia viver longe da minha filha, pus o meu ódio e o meu amor a serviço do senhor Casimiro. Mas agora Calixta me abandonou por isto nada mais tenho a fazer neste mundo. Minha morte, reconheço, é o justo castigo do meu crime. Espero que Deus me perdoe, pelo meu arrependimento e pelas torturas por que estou passando. Antes de comparecer perante Deus, declaro, pela última vez , que agi segundo as instigações do senhor Casimiro. E expirou”.

Sem essa testemunha, o inquérito estava enfraquecido e Casimiro foi absolvido por falta de provas contundentes, com a confissão apenas de uma negra escrava, saudosa pelo abandono da filha.

Após o sofrimento de acompanhar o processo, a senhora Soares morreu deprimida de tanta infelicidade que se abateu sobre seu lar, em razão de seu marido não ter cumprido a promessa de dar liberdade a escrava Calixta que ele prometera.

Casimiro deixou a prisão de cabelos encanecidos. Faltava-lhe também a razão. Foi encaminhado “para o manicômio de Botafogo”.

“A vingança da escrava Calixta causou efeitos terríveis. Produziu uma dupla paixão incestuosa, um parricida e fratricida, um terceiro envenenamento, um estelionato e um roubo por arrombamento, a morte de uma mãe e afinal, a queda de um homem, no momento preciso em que desaparecia a sua mocidade. Dois lares desolados, seis vítimas, três por intoxicação, uma pela desonra, a quinta pela vergonha e a sexta pela loucura”, finaliza Charles Expilly, descrevendo essa “tragédia grega” acontecida no interior dos trópicos da América do Sul, e inserida nos anais históricos da Vila de Iguassú.


Vila de Iguaçu-década de 1970-acervo do Arquivo Histórico da Diocese de Nova Iguaçu


FONTE BIBLIOGRÁFICA




EXPILLY, Jean Charles Marie – “Mulheres e Costumes do Brasil”

Cia. Editora Nacional &

Instituto Nacional do Livro - MEC- 1977
JOHN BURCHELL

O artista esquecido que desenhou a Baixada Fluminense no século XIX

Guilherme Peres
Pesquisador do Instituto de Pesquisa e Análises Históricas da Baixada Fluminense - IPAHB
Sócio fundador da Associação de Amigos do Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias
Sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico de São João de Meriti
Sócio fundador e pesquisador do grupo de pesquisa Amigos do Patrimônio Cultural



O Brasil foi, desde o primeiro século do descobrimento, fonte de curiosidade dos viajantes estrangeiros que por aqui aportavam em busca do novo, do deslumbrante, do exótico, do desconhecido.
Interminável a lista desses visitantes, que a partir do século XVI começaram a chegar, deixando relatos sobre as atividades de índios, negros e brancos formadores de nossa cultura: André Thevet, Jean de Lery, Antony Knivet, Hans Staden, Fernão Cardim, Pedro de Magalhães Gandavo e outros.
Entretanto, é a partir do século XIX, com a abertura dos portos e tangidos pelo surto da revolução industrial na Europa, que esses cronistas viajantes, e até pintores e desenhistas, transformaram a simples curiosidade em fonte de pesquisas científicas com valiosos registros de caráter botânico, geográfico, geológico, antropológico e etnográfico como: Jonh, Luccock, Jonh Mawe, Henry Coster, Saint-Hilaire, Debret, Spix e Martius Maria Graham, Rugendas, Daniel Kider, entre outros. Alguns com trabalhos artísticos de grande importância documental.

Porém, existe um que não é citado nas várias historiografias desses visitantes: William John Burchell. Nascido na Inglaterra em 1871 formou-se em botânica e em 1803 foi aceito como membro na Linnean Society de Londres. Durante quatro anos explorou a vasta região da União Sul Africana, voltando para seu país com grande coleção da flora, centenas de desenhos e grande número de “observações astronômicas e matereológicas”.
Influenciado por outros viajantes, resolveu conhecer o Brasil. No porto de Portsmouth, embarcou no navio Wellesley, em 15 de março de 1825 junto com a missão de Sir Charles Stuart, que veio a esse país com a missão de negociar o reconhecimento da nossa independência. Ao costear a península Ibérica, detiveram-se em Portugal por dois meses, onde Burchell aproveitou para desenhar e familiarizar-se com a linguagem.
Aportaram no Rio de Janeiro em 18 de julho do mesmo ano, demorando-se nesta cidade até setembro de 1826. Penetrando a Baixada Fluminense, nesse período, deixou uma série de desenhos que registram o Porto da Estrela, a sede da fazenda da Mandioca, pertencente ao barão de Langsdorff, naturalista e cônsul da Rússia no Brasil, e uma falua subindo as águas calmas do Rio Inhomirim com sua vela inflada ao sabor do vento.

Mas de todos esses desenhos, alguns já registrados pelo lápis de artistas famosos que também ali estiveram como Debret, Thomas Ender, Rugendas e Victor Barrat, surpreende-nos a desconhecida “Ponte Coberta”. Nele vemos negras escravas lavando roupa à margem de um rio, próximo a uma ponte coberta de telhas, notando-se ao fundo a torre de uma igreja, que o viajante brasileiro José da Cunha Mattos, assinalou em seus apontamentos que, ao aproximar-se da Fazenda da Mandioca atravessou uma ponte coberta, e que ali existia “uma igreja de Nossa Senhora da Conceição”. Burchell teria passado por essa fazenda em direção a Raiz da Serra dos Órgãos, até alcançar - para uma visita - a fazenda Santa Ana do Paquequer, do inglês George March, na futura Teresópolis, através de Santo Aleixo e Magé.
A falta de desenhos registrando sua presença na região da Serra dos Órgãos entre os dias 6 e 24 de fevereiro de 1826, é explicado por Gilberto Ferrez no prefácio de seu álbum de desenhos. Segundo ele, por ser estação chuvosa, o trabalho do artista tornava-se quase impossível naquela região tão bela, “vista da casa de March, das Araras, ou do Alto da Boa Vista”.
Durante quase cinco anos Burchell, viajou pelo interior do Brasil colhendo e catalogando amostras minerais e botânicas, registrando através de desenhos aspectos humanos e principalmente arquitetônicos com notável acerto de perspectiva e proporções, de igrejas, praças, arruamentos, sobrados etc. Legando para a posteridade raro acervo iconográfico, constando de 257 desenhos “do mais alto valor histórico e arquitetônico”, além de 33 pranchas sobre botânica e zoologia.



De volta à Inglaterra, com esse farto material artístico e científico, sentiu-se desprezado pelo governo, que demonstrou pouco interesse pelo seu trabalho. Com centenas de amostras botânicas e minerais classificadas e catalogadas, acompanhadas de inúmeros desenhos, não encontrou o apoio esperado para a publicação. Preterido por outros cientistas com trabalhos de menor valor, cansado e doente, suicidou-se no dia 23 de março de 1863. Desapareceu uma vida, mas sua obra artística permaneceu. Lamentavelmente seus diários de viagem nunca foram encontrados.


COMENTÁRIOS


É ainda Gilberto Ferrez quem nos fala sobre o Porto da Estrela, prefaciando seu álbum de desenhos: “Até então tínhamos as aquarelas do austríaco Thomas Ender como as melhores quanto a representação da arquitetura brasileira desse período. Agora, ao compara-las com o acervo deixado por Burchell, temos que reconhecer que este é superior aquelas, graças a meticulosidade com que reproduziu detalhes, sem falarmos na região retratada que é bem mais ampla e variada. Outra particularidade e das mais importantes, é das proporções e perspectivas serem absolutamente corretas, a tal ponto que o belo desenho de Rugendas do Porto da Estrela, ao ser comparada com o de Burchell, não passa de uma fantasia romântica do lugarejo”.
Ao observar essa magnífica “aguada” do porto citado por Ferrez, vemos que aparecem à esquerda do Rio Inhomirim um grande casarão aberto, abrigando extensos troncos de madeira, tendo ao lado um barco sendo construído ou reformado, aparentando ser um pequeno estaleiro. À direita, vê-se um rancho para abrigar tropeiros e mercadorias, cercado de inúmeros animais de cela pastando, pertencentes às tropas. “É um edifício muito comprido divido em cubículos por paredes de taipa, em frente do qual um teto prolongado forma uma grande varanda cujas pilastras são de tijolos”, diz outro viajante, Auguste de Saint-Hilaire.

Na abertura do álbum, aparece o auto-retrato de Burchell desenhado de frente, ostentando uma cartola com a aba em desalinho, encobrindo parte de uma abundante cabeleira. Abaixo dos olhos brilhantes aparece um grosso bigode que dá continuidade a uma extensa barba, encobrindo o pescoço até a altura de um laço de escoteiro. Sobre os ombros, um dólmã de gola alta completa o vestuário.

Mais adiante, um desenho a lápis que Ferrez chama de “Fazenda do Senhor João Antonio”. Em frente a ela aparece, sobre uma frágil ponte atravessando o leito do Rio Caioba, uma figura com cartola, que este diz ser o próprio Burchell. Ao fundo, o magnífico penhasco da Serra do Frade.

Também a lápis, aparece a sede da Fazenda da Cordoaria, que erroneamente Gilberto Ferrez afirma ser “A bela fazenda de Paulo Moreira, próxima de Mandioca”. Essa fazenda foi comprada pelo Primeiro Império, para instalação da Imperial Fábrica de Pólvora.

Em sua História, não foi encontrada a data de sua construção; entretanto, quando a fazenda foi adquirida à viúva de Antonio Ribeiro das Neves, pelo coronel João Antonio da Silveira Albernaz em 1804, o sobrado já existia, conforme consta na escritura de venda da fazenda, relatando a existência de “uma residência de sobrado com vários trastes dentro dela, e um oratório com alguns trastes”. Na frente, vê-se uma grande varanda, que se alcançava por uma escadaria reta de pedra, depois substituída por duas laterais, quando se tornou sede da Fábrica de Pólvora.



REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS



SAINT-HILAIRE, Auguste de – “Viagem às nascentes do Rio São Francisco”.Ed. Brasiliana – 1937 – SP

AZEVEDO PONDÉ, Francisco de Paula e – “O Porto da Estrela”. RIHGB – Volume 293 – 1971. DIN – RJ.

FERREZ, GILBERTO – “O Brasil do Primeiro Reinado, visto pelo Botânico John Burchell”. Fund. João Moreira Salles / Nacional Pró-Memória, 1981- RJ
Capela de Fazenda da Posse, N. Iguaçu-acervo Arquivo da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu


"AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL"  convida V. Sa. para o seu  "1º Encontro Cultural"  em comemoração ao  "DIA DA BAIXADA FLUMINENSE",  a realizar-se
no próximo dia 30/4, das 18h às 20h30.

PALESTRAS E EXPOSIÇÃO DE MAPAS, FOTOGRAFIAS E MAQUETE HISTÓRICA



VENHA PARTICIPAR CONOSCO!

Local:  Arquivo da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu, rua Dom Adriano Hipólito, nº 8, bairro Moquetá, Nova Iguaçu, RJ

Contatos: Edson Ribeiro (21)  9862-3036
                 Antônio Lacerda (21)  9569-0938
                 Clarindo (21)  9765-6038


Comendador Francisco José Soares. Oléo sobre tela, Rocha Fragoso, 1871