HISTÓRIA DA BAIXADA FLUMINENSE


A CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DO SOBERBO E O ANO QUE NÃO FOI


O autor: Edson Ribeiro
 
Situada no município de Guapimirim, a localidade da Barreira do Soberbo encanta a todos que a visitam. Emoldurada pelas belíssimas cachoeiras do rio Soberbo, ali existe, dentro da área do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Subsede), um dos mais representativos símbolos da beleza associada à simplicidade: a capela de Nossa Senhora da Conceição do Soberbo. No local encontra-se ainda o casarão da antiga sede da fazenda da Barreira, as ruínas do engenho da fazenda, a ponte velha da estrada de rodagem, as ruínas de um antigo hotel e da casa de cobrança, as duas pontes que serviram à antiga estrada Magé-Sapucaia, depois utilizadas pela Estrada de Ferro Teresópolis, monumentos que atestam sua importância econômica no passado e valorizam o turismo ecológico-histórico da região.

A capela está situada numa ilha entre dois braços do rio Soberbo (22 29 41.82 S, 42 59 46.99 O - coordenadas do Google Earth - GE), exatamente entre as duas pontes, com a frente voltada para a antiga estrada. Pode ser acessada pelo Parque (que cobra R$11,00 de ingresso por pessoa e R$5,00 para estacionar o veículo), precisando-se caminhar numa trilha de pedras de média dificuldade. Pode também ser vista pelo lado de fora, indo-se até a localidade da Barreira, após o Rogério’s Bar, seguindo em frente, poucos metros a pé, pelo antigo traçado da via férrea. Encontra-se bem conservada em razão de regulares reformas que têm sido executadas. O corpo central preserva as linhas originais, mas há também a sacristia e varanda laterais que lhe foram acrescentadas em reformas distintas. Em seu frontão lê-se a indicação do ano que seria de sua fundação: 1713. Assim, dentro em pouco, ela estaria completando 300 anos. Entretanto, baseado em pesquisas, uma das pretensões deste pequeno ensaio é questionar essa informação, dizendo que, na verdade, a referida capela data de meados do século XIX.

O que se propõe, em relação à data da fundação da capela do Soberbo, não é simplesmente discutir pormenores que poderiam passar em branco sem causar maiores prejuízos à ciência histórica. Queremos abordar o exemplo, chamando à atenção de como, muitas vezes, aceitamos serem inquestionáveis informações que deveriam, ao menos, passar por uma análise mais cuidadosa. O registro mais antigo que encontramos afirmando o ano de 1713 como o da fundação da Capela de Nossa Senhora da Conceição do Soberbo é o da obra “Magé, a Terra do Dedo de Deus”, datado de 1957, de autoria de Renato Peixoto dos Santos. Na página 220, tratando das capelas e igrejas do então município de Magé, o autor faz a afirmativa sem citar a fonte. Entretanto, vemos que o historiador mageense baseou essa parte de sua obra nos escritos do Monsenhor Pizarro . Sem passar por uma análise crítica, a afirmativa foi aceita como verídica.

Não pretendemos com isso criticar o escritor, que apresentou um trabalho de extrema importância, esperando, talvez, que ele fosse o início de um processo de produção literária sobre a história da região. O presente trabalho é apenas uma pequena contribuição a essa idéia, centrado na antiga Freguesia de Nossa Senhora da Ajuda de Guapimirim, hoje Guapimirim.

Esta não é, porém, a única e nem a mais importante questão que pretendemos tratar neste singelo trabalho. O que nos move é o desejo de descortinar a história da capela do Soberbo e de seu entorno. Terra de três “Henriques”, Henrique Dias, o agricultor, Henrique Bernardelli, o artista e Henrique Junger, o colono. Naquela localidade passaram diversos viajantes, inclusive a família imperial, retratando suas belezas e dando uma idéia de seu cotidiano. Convidamos assim o leitor a acompanhar-nos nesta viagem, onde passaremos pela história de Guapimirim, de suas capelas e engenhos seculares, de sua importante estrada imperial para chegarmos à bucólica Barreira do Soberbo. Aí nos deteremos para respirar um pouco de sua história, de seus personagens, elevando nossos espíritos nesse encantador pedacinho do mundo que inspirou poetas e artistas e continua produzindo fascínio àqueles que a visitam.

 
 
Capa e contracapa do livro de Edson Ribeiro

Como se vê, é um livro centrado na localidade de Guapimirim, trazendo elementos importantes também sobre a história de Magé e, sobretudo, da Barreira do Soberbo. Trata-se de uma obra de extrema importância, uma vez que relata fatos históricos inéditos sobre estas localidades e seus personagens. Guapimirim ainda não tinha um livro que tratasse de sua história colonial e imperial especificamente. A pesquisa foi realizada durante mais de 5 anos nos arquivos diocesanos, no Arquivo Nacional e em muitos outros arquivos públicos. Durante anos diversos artigos e obras importantes trataram da Capela da Barreira admitindo o ano de 1713 como o ano de sua fundação. Com isso, os interessados no assunto e mesmo os turistas que visitam o Parque Nacional da Serra dos Órgãos acabam assimilando esse equívoco. Assim, formava-se a idéia errônea de que o colo da Serra dos Órgãos possuía engenhos pelo menos desde o início do século XVIII. No livro apresento esse equívoco e trago a verdadeira história da localidade. É ricamente ilustrado, inclusive com mapas temáticos, o que contribui para esclarecer os assuntos propostos.



Sábado, 25 de fevereiro de 2012

www.historiabaixada.blogspot.com.br/2012/02/capela-de-nossa-senhora-da-conceicao-do.html





1 comentário:

 AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL


28 de abril de 2012 19:47


Importante trabalho de pesquisa historiográfica de grande contribuição à História da Baixada Fluminense.

Parabéns pelo seu segundo trabalho, companheiro Edson!

Já estou promovendo a sua divulgação. Pense na proposta do seu lançamento com palestra. Vamos discutir o assunto.





Abraços cordiais,






CLARINDO


AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL


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De patrimônio a estacionamento


Tradicional Centro Hípico do Rio de Janeiro corre o risco de ser transformado em estacionamento do Maracanã, mas prefeitura prevê o projeto apenas para 2016 enquanto historiadores e frequentadores lutam para tombar o espaço


Felipe Sáles

2/3/2012

Fachada do Centro Hípico. Foto Google Stret View
 
Diante da polêmica, a transformação do Centro Hípico do Rio de Janeiro em estacionamento do Maracanã só deverá vingar, inusitadamente, após a Copa do Mundo de 2014. Pelo menos é o que diz, hoje, a Prefeitura do Rio. Quando foi anunciado no primeiro semestre do ano passado, o projeto causou revolta entre historiadores e praticantes do esporte, que organizaram um movimento pedindo o tombamento do local. Em agosto, o vereador Carlo Caiado (DEM) deu entrada num projeto de lei para tombar o espaço, mas, desde então, a ementa sequer foi analisada pelos colegas – que majoritariamente apoiam a prefeitura. Diante disso, o caso foi entregue ao Ministério Público do Estado.

 
A prática de equitação acadêmica foi introduzida no país a partir de 1863 pelo brasileiro Luiz Jácome de Abreu e Souza, que após estudar na Inglaterra tornou-se um respeitado especialista em hipologia, criação e corrida de cavalos. A simpatia da Corte pela pelo esporte teve influência da Princesa Leopoldina, que praticava cavalgadas pela Quinta da Boa Vista junto dos aristocratas do Império.

Em 1911, no mesmo local onde funcionava as Cavalariças Imperiais, surgiu o Club Sportivo de Equitação – um dos primeiros do Brasil –, que deu origem à Sociedade Hípica Brasileira. Desde então, funciona como um ponto de encontro de gerações de militares, possibilitando a prática dos esportes equestres. Hoje, a situação no local é crítica. No carnaval, um duto de água se rompeu e o espaço ficou mais de uma semana submerso – desde as cocheiras até o campo.

Centro inundado no carnaval por problema em cano. Foto do leitor


Fator segurança pública

Além do valor histórico, o vereador Carlo Caiado ressalta também o aspecto de segurança pública para evitar a transformação do local em estacionamento. A polícia montada é uma exigência da Fifa para o evento – por permitir melhor visualização da multidão. Mas todos os cavalos ficam em Campo Grande, a cerca de 60 quilômetros de distância do estádio, enquanto o Centro Hípico fica ao lado.

“Existe uma pista um campo onde os policiais poderiam soltar os cavalos e se concentrarem próximos ao epicentro da festa. Não faz sentido, numa cidade que vai sediar ainda os Jogos Olímpicos, destruir um centro esportivo em privilégio de outro. Já encaminhamos o problema para o Ministério Público, para a Fifa e para o Iphan”, conta.

O projeto que tomba o local ainda não foi analisado por nenhuma das cinco comissões que deve passar antes de ir a votação. A Secretaria Municipal de Obras, em nota, disse que, embora as obras do entorno do Maracanã já tenham sido iniciadas, a fase seguinte – que abrange o Centro Hípico – “está prevista apenas para o futuro. A previsão é que seja realizada somente em 2016”.

A prefeitura, porém, já acertou com o governo federal a compra da área, que é do Exército. A ideia é que sejam demolidas as construções da Rua Bartolomeu de Gusmão para servirem de estacionamento e instalações de apoio aos eventos no estádio. Após as Olimpíadas, o lugar seria usado num plano de ampliar a área de circulação do público da Quinta da Boia Vista. O plano consta entre os projetos apresentados ao Comitê Olímpico Internacional. O terreno do Centro Hípico seria interligado ao Maracanã por duas praças elevadas, que atravessariam a linha férrea.

www.revistadehistoria.com.br/secao/reportagem/de-patrimonio-a-estacionamento

Capelas filiais da Freguesia de Santo Antônio de Jacutinga

1ª____Capela de Nossa Senhora do Rosário, na Fazenda São Bento de Iguassu. Pizarro desconhece a data da sua edificação;

2ª____Capela de Nossa Senhora da Conceição do Pantanal, no Engenho do Pantanal, anterior a 1754;

3ª____ Capela de Nossa Senhora da Conceição (1731), no Engenho da Cachoeira, de Manoel Corrêa Vasques e José Vasques. Segundo Pizarro, havia uma anterior arruinada;

4ª____ Capela de Nossa Senhora da Madre de Deus, anterior a 1767, no Engenho da Posse, do Capitão Bento Luiz de Oliveira Braga. Segundo Monsenhor Pizarro, seus fundadores foram Manoel Álvares da Silva e seu cunhado, o Capitão Francisco de Veras Nascentes;

5º - Capela de Nossa Senhora do Livramento, no Engenho de Francisco Duarte Filgueiras, de data ignorada. Não é sabida a localização do engenho e da capela. Durante a visita de Monsenhor Pizarro, foi constatado o seu arruinamento;

6ª____ Capela de Nossa Senhora da Conceição do Sarapuhy, no Engenho de mesmo nome. Consta de Monsenhor Pizarro a informação de que o engenho teria passado para as mãos do Capitão João Soares de Bulhões e de que a capela teria sido desvinculada da Matriz de Jacutinga para se tornar a Sede da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Sarapuhy, mas de efêmera existência:

                    “...Neste  mesmo  Sítio,  e em distância de poucas  
                    braças  da  Referida   Capela,    ainda    subsistem 
                    as     paredes    da     Igreja,     que    foi    a    Matriz
                    de     Serapuhy,      q'  á      principio    dice,     fora  
                    desmembrada desta de  Jacutinga.  Ela  teve   p.r  
                    Orago   a   Senhora   da     Conceição;   e  o  lugar, 
                    ainda      conserva      o      ttº     de      Engenho    da
                    Conceição,    p.r q’     com    esse  mesmo       ttº  foi 
                    fundada     a   capela,    em    q’   se    estabeleceo   a
                    Matriz.   Em   que   tempo    se   fundou,   ignorei.
                    Apenas   por    alguns   documentos   consta   q’  a
                    pedimento  do  povo  foi  creada  em  cura...”(1)

[1] MONTEIRO, Marcus (org.). O Rio de Janeiro nas Visitas Pastorais de Monsenhor Pizarro: Inventário da Arte Sacra fluminense, vol. I. Rio de Janeiro: INEPAC, 2008, p. 246. 

Pesquisa  "ENGENHOS E FAZENDAS DO SUBÚRBIO CARIOCA"


Casa de Fazenda do Capão do Bispo, Del Castilho-Agosto, 2010-acervo Clarindo

Prezados amigos, moradores e apaixonados pelos Subúrbios da Cidade do Rio de Janeiro.

O GRUPO DE PESQUISA DO SUBÚRBIO CARIOCA (GPSC), composto pelos pesquisadores e professores MAURÍCIO THOMAZ (Irajá), JORGE FURMAN (Madureira), PAULO CLARINDO (São João de Meriti), CARLOS MEDA (Madureira) e JUBER DECCO (Maria da Graça), desenvolve uma pesquisa de mapeamento e identificação dos engenhos e fazendas que existiram entre os séculos XVII e XIX nos Subúrbios do RJ, mais precisamente nas outroras freguesias de N. S. da Apresentação do Irajá e São Tiago de Inhaúma.

Se alguém puder colaborar com alguma informação sobre o assunto, por favor, entre em contato conosco pelos e-mail' s abaixo:

professorcla@hotmail.com;

mauriciolozano@oi.com.br;

cartfbj@yahoo.com.br;

jorgefurman@gmail.com;



Cordialmente,

Paulo CLARINDO

GRUPO DE PESQUISA DO SUBÚRBIO CARIOCA

(21) 2333-1390 ou 9765-6038

professorcla@hotmail.com







Prezados.







Com relação ao convite do lançamento do livro do professor Guilherme Peres (PERFIS MERITIENSES), informamos que a Igreja Matriz de São João Batista de Meriti fica localizada na Praça Getúlio Vargas (mais conhecida como Praça da Matriz), no Centro de São João de Meriti. O Salão Paroquial fica nos fundos da igreja, junto ao acesso da Unigranrio.





Cordialmente,






CLARINDO


Amigos do Patrimônio Cultural


www.amigosdopatrimoniocultural.blogspot.com


(21) 9765-6038 ou 2333-1390
Prezados amigos.

C O N V I D A M O S    vocês para o lançamento do livro "PERFIS MERITIENSES", de autoria do professor GUILHERME PERES, pesquisador do IPAHB e associado ao AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL.

PÊNIS DE PEDRA (Itaconha) - DEDO DE DEUS - SERRA DOS ÓRGÃOS (Ibiticonha)

Frederico Fernandes Pereira*






A “Serra dos Órgãos”, trecho da cordilheira marítima (Serra do Mar), entre os municípios de Teresópolis e Magé (hoje Guapimirim), tem tal denominação, pela sua aparente semelhança (forçada) do perfil dos seus pináculos, de diferentes alturas, que se assemelham ao órgão, instrumento musical de sopro (foles), com seus tubos sonoros de diversos tamanhos. Teima-se, sem motivo histórico-cultural justificado, salvo por pudicícia, hoje fora de moda, em manter-se tão apressada e grosseira similitude, com àquela imagem serrana.

Tem o presente estudo, o propósito de contestar tão consagrada e improcedente definição do topônimo “Serra dos Órgãos”.

No passado houve quem aventasse a hipótese do nome “Serra dos Órgãos” decorrer da forma do “Dedo de Deus”, um dos pináculos da mesma serra, por assemelhar-se, com perfeição, aos órgãos genitais do homem, incluindo o pênis ereto, com sua destacada glande e os testículos. Mas, tal hipótese não veio acompanhada de qualquer justificativa, inclusive, e principalmente, histórica. Daí, não ter sido considerada, quando aventada. No entanto, em que pese tal versão, daquela imagem topográfica, não ter ido além de uma hipótese, ela é provadamente procedente. Recorrendo à fecunda cultura indígena Tupi, identificamos um rio mageense, que nasce ao pé do “Dedo de Deus”, em sua face Leste, cujo nome Tupi é “ICONHA”, que é atravessado pela Estrada Rio – Teresópolis (BR-116); afluente, dito rio, da margem esquerda do Rio Guapiassú. “ICONHA” é um vocábulo Tupi, formado pelas raízes “i” = água ou rio e “CONHA”, que significa pênis. Assim, temos: Rio do Pênis ou rio que nasce no pênis de pedra (ITACONHA). O trecho superior do Rio Iconha, atravessado pela BR-116, é conhecido, também, como Rio Garrafão, cerca de 1.700 metros antes do Alto do Soberbo, de quem sobe a serra.

O Rio Garrafão (ou Iconha) foi teatro do famoso e pitoresco episódio histórico, que se deu quando da visita do Imperador Pedro II à Teresópolis, em janeiro de 1876, que, ao parar na travessia do dito rio, quis provar a tão decantada água do mesmo, preferindo, na ocasião, utilizar-se da folha larga do inhame, por ser mais natural. Porém, lá estava esperando a passagem do Imperador, o vendeiro português do local, o João Garrafão, que, tirando de dentro de uma caixa forrada de veludo, um fino copo de cristal cinzelado, passando-o às mãos do Imperador, rogando que seria uma honra para ele (o João Garrafão), que S. M. Imperial se servisse de tal copo. O Imperador, tolerante, atendendo a súplica espontânea e simples do João Garrafão, bebeu com vagar, no ofertado copo, elogiando a delícia dàquela água, e, querendo, em seguida, passar o copo as outras pessoas de seu séquito, interveio o João Garrafão, dizendo: “Peço perdão a V. M., neste copo ninguém mais beberá, para as demais pessoas presentes, que eu muito respeito e das quais sou servidor obediente, tenho outros copos” (Gilberto Ferrez – Colonização de Teresópolis – 1970).

Significando dizer que, o Imperador deliciou-se com o precioso líquido emanado do pênis de pedra...

O pináculo “Dedo de Deus”, é a marca identificadora da turística e amena cidade de Teresópolis, no entanto, sempre esteve situado no Município de Magé (atualmente em Guapimirim). Significando dizer, que o símbolo daquela agradável cidade, é o petro-falo mageense...

Há no Estado do Espírito Santo um município e rio com o nome de “ICONHA”. Este autor, em visita àquela região, ouvindo moradores locais, apurou, que às margens do Rio Iconha, havia uma pedra alta, na forma de um charuto – no dizer dos mesmos moradores – que foi, toda ela (dita pedra), dividida em grandes blocos, pelos mineradores de granitos decorados, para exportação. Naquela região, é intensa e ampla a exploração de citados granitos, destruindo e deformando a natureza regional. Por não ter identificado em citado município (Iconha), outra formação rochosa, de forma aguda, que pudesse assemelhar-se ao pênis, consoante a imagem metafórica dos índios primitivos, admite este autor, que o nome local (Rio e Município = Iconha), fosse inspirado em citada pedra demolida e fracionada pelos vândalos mineradores.

No “DICIONÁRIO GEOGRÁFICO DO BRASIL”, de Alfredo Moreira Pinto, de 1896, há o verbete “RIO ICONHA”, que estaria situado em Cananéia, no Estado de São Paulo. Este autor consultou diversos mapas daquele Estado, não logrando identificar referido rio dicionarizado. No Município de Jacupiranga, ao Norte de Cananéia, há um rio e um lugar com o nome de “Canha”, nome este que tem relação com erosões topográficas ou bebida alcoólica.

Na “REVISTA TRIMENSAL DO INSTITUTO HISTÓRICO GEOGRAPHICO E ETHNOGRAFICO DO BRASIL”, Tomo XLV – Parte I, de 1882, em estudo geográfico e econômico do Sul do Estado de Minas Gerais, o autor, José Franklin da Silva, ao descrever um dos ramos da “Serra da Mantiqueira”, diz à página 407: “Um outro ângulo forma a Mantiqueira em São Bento, afastado 15o do Sul do “pico dos órgãos em Itajubá”. Adiante (página 408) diz: “A Mantiqueira entre Órgãos e Itatiaia...”; nas páginas 409 a 411, registra as alturas (altitudes) dos pontos mais elevados do Sul de Minas Gerais, entre os quais, o “PICO DOS ÓRGÃOS”, com 10.950 palmos de altitude.

No TOMO XLVII, Parte II, da “REVISTA” acima citada, de 1884, foi publicado um estudo do geólogo José Franklin da Silva Massena, que trata da ossatura das montanhas que compõem o “Sistema Mantiqueira”, em Minas Gerais, inclusive a “Serra do Mar”, em São Paulo e Rio de Janeiro, à partir do “Pico do Itatiaia”. O referido estudo foi executado pelo citado geólogo em 1867. À página 273, no último parágrafo, diz o autor: “A Serra dos Mairinks, DANDO ORIGEM AO PICO DE FÓRMA DE UM ÓRGÃO...” (grifo nosso). Observe-se, trata-se de um só pico isolado, sem outros pináculos, como os “Órgãos” de Teresópolis.

No Estado de São Paulo, no Município de Bofete, ao Sul do Município de Botucatu, há o “Morro dos Órgãos” e “Ribeirão dos Órgãos”. Tais topônimos justificam-se, por lá existirem pináculos que lembram os órgãos genitais masculinos, em ereção, conforme a visão dos índios, à exemplo dos “ÓRGÃOS” de Teresópolis.

Na rica e reveladora obra “NOTÍCIA DO BRASIL”, de Gabriel Soares de Sousa, minuciosa autópsia do Brasil, dos primeiros quartéis da sua Era Colonial, editada em 1587, cujo autor foi considerado pelo mestre Capistrano de Abreu, “como a enciclopédia viva do nosso século XVI” (Os Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil), em seu Capítulo XXXIII, há a notícia de uma expedição dos bandeirantes baianos, chefiada por Sebastião Fernandes Tourinho, que era aparentado com o Capitão-Mor da Capitania de Porto Seguro, que, internou-se nos atuais territórios baianos e mineiros, tendo chegado (dita expedição) a um ponto do qual, teriam avistado a “Serra dos Órgãos do Rio de Janeiro”. Referida notícia foi posta em dúvida pelo Capistrano de Abreu, isto é, de terem aludidos bandeirantes baianos, avistado àquela serra fluminense. O propósito deste episódio histórico, foi mostrar a antiguidade toponímica da expressão “Serra dos Órgãos”.

Os índios antigos, com seus hábitos e vivência de seres permanentemente pelados, do nascimento à morte; homens, mulheres, crianças, jovens e velhos; todos expostos nus, na convivência familiar e social. Em todas as posturas: em pé, sentado, acocorado, deitado em qualquer posição do corpo. Suas partes pudendas à mostra, à todo momento, com seus detalhes anatômicos. Com semelhante cenário social, explica-se o que escreveu o padre José de Anchieta, em carta de maio de 1560 (“Informações, Fragmentos Históricos e Sermões”- Págs. 115/16 – Editora Itatiaia), informando sobre costumes dos índios, “.... pois os Brasis não costumam usar de rodeio algum de palavras, para explicar as cousas que .... são ditas sem ofensa alguma: pelo contrário, pronunciam claramente, sem nenhum vexame, as palavras que significam os órgãos secretos de um e outro sexo, a cohabitação e outras da mesma natureza”.

Pela mesma razão, da visão constante dos seus corpos nus, por analogia de forma, muitos aspectos de coisas da natureza, despertavam a atenção dos índios, que, por visão metafórica, segundo a original classificação dos topônimos, estabelecida pelo sábio brasileiro do passado, Everardo Adolpho Backheuser (Va Reunião Anual da Associação dos Geógrafos Brasileiros), denominavam (os índios) tais coisas da natureza, repita-se, por suas semelhanças com seus órgãos genitais e corpóreos. Tomemos alguns exemplos. No Estado da Paraíba há a conhecida e famosa Praia de Tambaú. Trata-se de palavra Tupi, formada por duas raízes vocabulares: “tamba” = vagina e “una” = coisa preta ou escura. Significando: vagina preta ou escura. Isto porque, havia ou há, ainda, no barranco (falésia) da terra alta junto à referida praia, alguma fenda estreita, que vista do mar, assemelha-se a uma vagina depilada, com seus grandes lábios, como era de uso pelas índias, no dizer do Pero Vaz de Caminha, em sua carta ao Rei D. Manoel I. Um segundo exemplo. Há uma espécie de vespa (marimbondo), que tem o nome de “Tambacaba”, também vocábulo Tupi, formado pelas raízes “tamba” (vagina) e “caba” = nome genérico Tupi dos marimbondos. Referida denominação, decorre, na visão do índio, da semelhança que a entrada do ninho ou casa da dita vespa, tem, perfeitamente com a vagina depilada das índias. Em terceiro exemplo, temos outra espécie de marimbondo, de nome Tupi “Tapiácaba”, igualmente constituído de duas raízes vocabulares: “tapia” = testículos, escrôto e “caba” = marimbondo. Assim foi denominada dita vespa, pela semelhança que seu ninho tem com o escrôto humano. Vamos a outro exemplo. A RIHGB, TOMO 104, de 1929, publicou a obra do Conde Ermano Stradelli “Vocabulários Portuguez-Nheengatú X Nheengatú-Portuguez”, que, na página 655, registra o nome do marimbondo (vespa) “Tacunha-cáua”. “Cáua” é prosódia do Tupi amazônico, o mesmo que “caba” (vespa). “Tacunha-cáua”, é uma casta de marimbondo, cujo ninho (casa), assemelha-se ao membro viril do homem, segundo referida obra do citado Conde.

Como se sabe, quando da formação da primeira cidade do Brasil, São Vicente (SP), pelo fidalgo português Martim Afonso de Souza, foi ele, muito favorecido, sem luta com os índios locais, pela presença ali, há muitos anos, do português João Ramalho, que tinha como mulher, uma filha do poderoso Tuchauá (Cacique) “Tebiriçá”, que dominava a região, inclusive o planalto (Piratininga). Pois bem, “Tebiriçá” é um apelido (nome) Tupi, formado por dois substantivos: “Tebi” = bunda e “Içá” = tanajura, que é a fêmea da formiga saúba (saúva), com seu gordo abdome, túmido de ovos fecundados, para a formação de outro formigueiro. Significando dizer, que, o grande e temido cacique era dotado de destacada bunda gorda. Daí o nome que recebeu, na forma daquela visão libertina e metafórica dos índios antigos. Resumindo, o poderoso cacique paulista, tinha o nome de “BUNDA GORDA”.

Apesar da convivência que os índios passaram a ter com os brancos, observando e assimilando os hábitos e costumes dos mesmos, isto não foi o bastante para fazê-los esquecer suas próprias visões e interpretações das manifestações culturais e novidades trazidas pelos civilizados. Por isso que, os índios, freqüentando e observando as igrejas católicas, erguidas pelos colonos conquistadores, traduzindo suas expressões licenciosas, deram ao badalo dos sinos de ditas igrejas, o nome de “Tamaracá-raconha” (no segundo termo, o “R” tem pronúncia branda – lingual-dental – segundo a prosódia Tupi), como vemos no TOMO LIV da RIHGB – Parte I – “Poranduba Maranhense” – Pág. 267, de frei Francisco de N. S. dos Prazeres. Isto é, àquela permanente sem cerimônia com seus corpos nus, sugestionaram os índios a compararem o badalo do sino, com seus pênis intumescidos.

À propósito, isto é, para mais realçar as impressões e definições dos índios sobre coisas e pessoas, lembremos de um apodo sobre certas pessoas, que sempre causou curiosidade. Como se sabe, em todo o vasto território brasileiro, em todos os tempos, o homossexual masculino recebe a alcunha de veado; denominação que sempre despertou curiosidade quanto à sua origem. Pois bem, foi o índio o autor de aludida alcunha, que foi adotada pelos colonizadores. O veado, o ruminante, ao caminhar, cruza as patas traseiras, provocando o rebolado de suas ancas. O índio, arguto e calmo observador, com àquela sua natural e indiscreta visão licenciosa, viu semelhança do andar do homossexual, com o caminhar rebolativo do veado. Daí, nasceu a alcunha “abá-soó”, que se traduz por: “aba” = homem e “soó” = veado, isto é, o homem que rebola como o veado. O padre jesuíta A. Lemos Barbosa, em sua original e fecunda gramática “CURSO DE TUPI ANTIGO”, de 1956 (2a tiragem), nas Lições 23a e 60a, páginas 142 e 401, respectivamente, limita-se em traduzir o substantivo aposto “abá-soó”, como “homem-bicho”. Assim faz, no entanto, como exemplo gramatical do substantivo aposto, que modifica outro substantivo, como “complemento atributivo”. Vê-se, sem dificuldade, que o citado gramático, tergiversou, premido pelo seu arraigado pudor, postura própria dos jesuítas, evitando definir a razão da alcunha ao índio homossexual.

O nome “Serra dos Órgãos” e seus derivados, em diversas regiões brasileiras, como aqui comentamos, para designarem àqueles pináculos de pedra, que despertavam nos índios visões e imagens sexuais ou eróticas, traduzem a envergonhada repugnância dos antigos cronistas do Brasil, principalmente os jesuítas, por suas costumeiras posturas pudicas, como dissemos no início deste estudo. Daí, ditos cronistas históricos, optarem pela expressão “Órgãos”, como substituição dos nomes libertinos Tupis.


Frederico Fernandes Pereira, 84 anos, Engenheiro Agrimensor,residente em Nova Iguaçu- RJ, estudioso da cultura e da língua Tupi. Este artigo publicado no jornal “Correio da Lavoura” em 4 de junho de 2011.