J E R I C I N Ó


Prezados amigos.



Apresento-lhe a pesquisa do dr. Frederico Fernandes Pereira, 80 anos (Engenheiro Agrimensor, CREA –147), ele se aprofunda na pesquisa etimológica para nos trazer o significado dos topônimos tupi, debruçando-se especificamente sobre o vocábulo Jericinó, " o nome pelo qual – segundo o autor- os índios Tamoio designavam o maciço montanhoso de origem vulcânica isolado na Baixada Fluminense, conhecido, atualmente como Serra de Madureira, no território de Nova Iguaçu, e Serra do Mendanha, no município do Rio de Janeiro".



Por favor, leia o artigo: www.mitrani.org.br/jericino.doc e divulgue.



Muito grato,



Antonio Lacerda de Meneses
Arquivo da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu - RJ



JERICINÓ, um “fóssil glótico”


Frederico Fernandes Pereira


http://www.cibg.rj.gov.br-backoffice-imagens-apagm14/

No título deste estudo etimológico, tomamos de empréstimo a feliz definição cunhada pelo brasileiro sábio do passado, Everardo Adolpho Backeuser (1879-1951), que, em tese apresenta na Vª Reunião Anual da Associação de Geógrafos Brasileiros (1951), ao estabelecer de forma original, as regras e evoluções da TOPONÍMIA, definiu os nomes geográficos de etimologia desconhecida, como “fóssil glótico”. Anteriormente (1901), no entanto, o grande sábio brasileiro, Theodoro Fernandes Sampaio, na introdução de seu livro, “O TUPÍ NA GEOGRAFIA NACIONAL”, que, consideramos ser, a mais importante obra de toda a literatura brasileira, ao comentar sobre as vozes bárbaras do passado brasileiro, desaparecidas, refere-se a “sua lenta e secular fossilização, expressas nos topônimos Tupís que se conservavam, porém, com etimologias desconhecidas.


“Jericinó”, é o nome pelo qual, os índios TAMOIOS, designavam o maciço montanhoso de origem vulcânica isolado na Baixada Fluminense, conhecido, atualmente, como “Serra de Madureira”, no território de Nova Iguaçu e “Serra do Mendanha”, no Município do Rio de Janeiro. Dito vocábulo Tupí, vem sendo grafado por quase todos os autores, historiadores e geógrafos, com a letra “G” (Gericinó), o que não procede, visto que, foi reservado pelos gramáticos da língua Tupí (Anchieta, Figueira, Símpson, Adauto Fernandes, Lemo Barbosa, etc.), para referida consoante (G) o som velar ou gutural, enquanto que, o vocábulo Tupí aqui em estudo, tem som fricativo ou linguopalatal em sua letra inicial (J). À rigor, a letra “J” está ausente do linguajar Tupí, com o som que nós a empregamos, em nosso idioma português. No Tupí, dita letra vale com o “i” semivogal, fazendo um único som com a vogal posterior, como “Jandé” (iandé) nós (Anchieta – Cap. I – Letras).


DA ETIMOLOGIA


A primeira etimologia do vocábulo Tupí “Jericinó”, foi levantada por Theodoro Sampaio (1901), em seu livro “O TUPÍ NA GEOGRAFIA NACIONAL”, acima citado, no “Vocabulário Geográfico Brasileiro” , do mesmo livro, grafado com a letra “G”, nos termos seguintes:


“Gericinó - corruptela de “yarí-cin-ó”, o cacho fechado, é o perianto das flôres do gerivá, a bainha que os protege, a qual, seca, se abre em duas partes côncavas como canoas, o que o vulgo chama CATOLÉ. Nome de uma localidade e serra no Rio de Janeiro.”


Agenor Lopes de Oliveira, em sua obra, “TOPONÍMIA CARIOCA” (sem data), acompanhando a etimologia acima, com acréscimos e variações, assim define o termo TUPÍ aqui estudado:
“Jericinó – (887m) Corruptela de iarí, de airy,“em cima, sobre, no alto”, e cin-o, liso e fechado. Portanto, “morro liso e fechado em cima, no alto”, segundo penso (ver características morfológicas). Alguns autores dizem que significa “cacho liso e fechado, o perianto” (talvez analogia com o conjunto). JARIXINÓ, nas antigas cartas. M. Saint-Adholfe (111, pag. 529, Tomo I) diz: No seu cume existe uma lagoa, do mesmo nome, que abunda de excelente pescado”. (Isto parece justificar a interpretação que dou à etimologia do vocábulo Tupí. Portanto na, parte, que é lisa e fechada, está a citada lagoa). Serve de limite ao Distrito Federal e Estado do Rio. Na vertente para o D.F., pertence à freguesia de Campo Grande. É também chamada Mendanha”.
Outros autores repetem as etimologias acima transcritas, sem maiores acréscimos. O autor destas linhas, igualmente, em artigos no “Correio da Lavoura”, analisando questões outras sobre a “Serra do Jericinó”, reproduziu as mesmas etimologias aqui citadas, sem análise crítica, tendo em vista seus consagrados autores.


Posteriormente, na esteira de nossos constantes e ininterruptos estudos da idiomática Tupí, fomos despertados por algumas raízes vocabulares suspeitadas no vocábulo JERICINÓ e suas variações gráficas, presentes nas várias cartas de sesmarias de terras, concedidas por MARTIM DE SÁ, no princípio do SÉCULO XVII, na “Serra do Jericinó”.


Nos códices 158 e 158-A do Arquivo Nacional, referente às sesmarias concedidas entre 1602 e 1605, o nome de citada serra tem as seguintes grafias: “JORISINOM”, “GOYXINÕM”, “JORIXINONGA”, “JORISINÕNGA”, “JORICINÕGA” E “JEROCINOL”.


De pronto, nos chamou a atenção, a constância da terceira sílaba, que nos despertou para a possível raiz vocabular “CI”, que se traduz por “MÃE”.


Com a primeira suspeita: “ci” = “mãe”, a última sílaba, se revelou associada à primeira, sem necessidade de maiores especulações. A última sílaba, desperta a atenção para a raiz Tupí “nóng”, que se traduz por: “deitado”, como vemos em “O CADERNO DA LÍNGUA”, de FREI ARRONCHES – Vocabulário Português – Tupí, de 1739, no qual recolhemos dita raiz vocabular, com as seguintes variações:


“JENÓNG” - deitar-se – página 111
“AJENÓNG - estar deitado – página 131
“JENÓNG” - jazer – página 186


No “VOCÁBULÁRIO DA LÍNGUA BRASÍLICA”, manuscrito PORTUGUÊS – TUPÍ, embora publicado no Século XVII, é atribuído por alguns estudiosos do TUPÍ, como sendo da autoria do Padre Anchieta, na edição condensada e prefaciada por Plínio Airosa, em 1938 (S.P.), temos na página 177, os seguintes verbetes:


“Deitado estar” -
Anhenonggitupa
“Deitar-se à dormir” -
Anhenonggiepíca


O Conde Ermanno Estradelli no seu “VOCABULÁRIOS PORTUGUÊS – NHEENGATÚ e “NHEENGATÚ – PORTUGUÊS”, edição do I.H.G.B. - Vol. 158 – 1929, registra:


“Deitar” - Ienô (leia-se jenõn) - Página 169
“Estender-se deitado” - Iuienõ (leia-se jujenõn) - Página 203


No “DICIONÁRIO PORTUGUÊZ – BRASILANO e BRASILIANO – PORTUGUÊZ”, de 1975, atribuído por Plínio Ayrosa, como sendo da autoria do Frei Onofre, vemos os seguintes verbetes:


“Deitar alguém” - Mojenóng – Página 75
“Deitar-se” - Jenóng – Página 75
“Deitar-se” - “Jazer” - Jenóng – Página 244
“Curar-se” - “sarar” - Jepoçanóng – Página 244


Confrontando-se as diversas desinências aqui arroladas, com as grafias constantes das sesmarias do Século XVII, acima relacionados, vemos a presença da raiz vocabular “NÓNG”, que tem o significado de “deitado”, observando-se, que, na última das sesmarias, o escrivão, talvez por mais aguda sensibilidade auditiva, acentuou, mais que nas outras, a tonalidade final “Nól”, que muito se aproxima do som da raiz vocabular.


Assim, com as duas raízes vocabulares Tupí identificadas no termo “Jericinó”, aqui estudado, vemos uma referência a “mãe deitada” = CI: mãe e NÓNG: deitada.


Recorrendo a “GRAMÁTICA TUPÍ”, de Adauto D'Alencar Fernandes, 2ª edição, de 1960, que, no juízo do grande gramático João Ribeiro, é “a única que conheço capaz de ensinar e falar e escrever corretamente o idioma Tupí (1925)”, nela, em dita gramática, o autor, ao arrolar os fonemas consoantes ou consonâncias do NHEENGATÚ, que é o Tupí amazônico, refere-se ao fonema “GÊ” ( prefixo) e seu derivado “GERICY”, sendo este traduzido como “CAUSA DE ORIGEM”.

Chegamos, desse modo, ao que faltava para, etimológicamente, compreendermos o vocábulo Tupí “JERICINÓ”. Embora Adauto Fernandes tenha usado a grafia do fonema com a letra gutural “G”, que êle mesmo à página 93, de sua “GRAMÁTICA”, atribui a dita letra “G” o som de “guê”. Desse modo, em atenção a sua lição, nossa grafia será com “J”, com a ressalva do que dissemos sobre tal letra, no início deste estudo.


Ao se traduzir “JERICY”, como “causa de origem”, é porque aí está presente a raiz vocabular “CY” = mãe. O índio em sua cósmovisão, atribuía a existência de mãe para todos os fenômenos naturais, tudo tinha mãe. Associando, então, “JERICY” (causa de origem) com “NÓNG” (deitado) teremos: “A mãe geradora deitada”, como a tradução do vocábulo Tupí “JERICINÓ”.


Buscando a confirmação dessa etimologia, suspeitamos que fosse ela uma expressão metafórica, como nos ensina o mestre antes citado, Everardo A. Backheuser, ao qualificar as origens dos topônimos. Daí, saímos em campo, contornando a “Serra do Jericinó”, observando sua silhueta projetada no firmamento; não precisamos andar muito. Saindo de Nova Iguaçu, pela Rodovia Presidente Dutra, em direção ao Rio de Janeiro, ao chegarmos na ponte sobre o Rio Pavuna, já se nos apresentava a majestosa silhueta da “GRANDE MÃE GERADORA DEITADA”, de costas, de corpo inteiro, do cabelo estendido para trás, aos pés, com as mãos cruzadas ao peito. Porém, de tal ângulo (Rio Pavuna), aparece no pescoço da “GERADORA”, o “pômo-de-Adão (hióide – gogó). Buscando outro ângulo, chegamos ao alto do bairro “Vista Alegre”, onde, no início da colonização portuguesa, foi um dos locais da TABA (aldeia) Tamoia ACARÍ. Dali, dos fundos do bloco de apartamentos “40”, tomamos a fotografia da “MÃE GERADORA DEITADA”, que ilustra o presente estudo, sem a presença do dito hióide (gogó). Dali, da aldeia (Taba) Acarí, como ponto eminente, os índios tinham constante visão da “Serra da mãe geradora”. Igualmente, ao navegarem na Baía de Guanabara, em suas “pirógas”, tinham igual visão da mesma “Serra” que abrigava a mãe responsável pela vida.


No presente estudo etimológico, seguimos a regra de ouro recomendada pelo sábio Theodoro Sampaio, que alerta para a tarefa primeira a resolver, que é a identificação do vocábulo primitivo, para conseguir sua “restauração histórica”, e, que, “exprimem sempre as feições características do objeto denominado, como produto que são de impressões nítidas, reais, vivas, como soem experimentar os póvos infantes, incultos, no máximo convívio com a natureza” (O TUPÍ NA GEOGRAFIA NACIONAL – 1987 – PÁG. 178).


Decorre de nossa conclusão etimológica, que a grafia correta para o vocábulo Tupí aqui definido, vem a ser “JERICYNÓNG”.


DISSECANDO A ETIMOLOGIA


Para maior abono de nossa grafia inicial, do étimo Tupí aqui estudado, lembramos a Lição 1ª, do padre jesuíta Antônio Lemos Barbosa, em seu “Curso de Tupí Antigo” - pág.27, quando diz: “O “g” nunca se pronuncia como o “J”, mesmo antes de “e”, “i” ou “Y”: mo-ingé (pron. Moingué, não moinjé) = introduzir”. Esse Tupínólogo seguiu a lição do primeiro e maior mestre da língua Tupí, o jesuíta José de Anchieta, em sua “Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, que ensina no capítulo I (atualizada): O “g”é sempre gutural, duro: Mo-ingé (moingué) = fazer entrar”.


Cabe aduzir que, nos dicionários e vocabulários Tupí, o verbo deitar ou seu derivado deitado, traduz-se, também, dos modos seguintes:


Vocabulário da língua Brasílica (Anchieta), página 177 – Deitado estar = Aiub. Anhenongguitupa. No mesmo vocabulário temos: curar = Aipoçanõg – página 172.

“Vocabulários Portuguez-Nheengatu e Nheengatu-Portuguez”, do Conde Ermano Stradelli, página 169, temos, deitar: Ieno (leia-se jenô) – Deitar ou fazer deitar: Muienô.


“Dicionário Portuguez-Brasiliano e Brasiliano-Portuguez” (1795), reimpresso em 1934 por Plínio Ayrosa, na página 244, temos, “jenong” = deitar-se, jazer. Na página 277, vemos: “Poçanóng” = curar e “Poçanongára” = o curandeiro, o médico.


“Poranduba Maranhense” - Frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres Maranhão (Francisco Fernandes Pereira) – RIHGB – Tomo LIV – Parte I, 1891, encontramos: “Poçunga” = Medicina, remédio, purga; “Poçanong” = curar; “Poçanongara” = Médico, cirurgião (pág. 260).


Pelo que vímos acima, o próprio gramático Anchieta alinha duas vózes verbais para significar deitar ou deitado: “Aiub” e “nóng”. Sendo que, o segundo verbo (nóng), é para definir quem está deitado, acamado, por estar doente, sendo medicado (poçanga), a POÇÃO de nóssas avós, compreendendo chás e banhos da medicina natural, os fitoterápicos indígenas. Daí, concluirmos que, a postura de “MÃE GERADORA” (Jericinóng), estirada de costas, com as mãos cruzadas no peito, era vista pelos índios, como àquela que está deitada por estar adoentada.


3 comentários:

Franz disse...

Passei aqui para mais um banho de cultura e historia iguaçuana. Ah! Vi que gostou do meu desenho da Faz. S. Bernardino. Obrigado!
Continue com esse belo trabalho em prol da cultura de NI. Certamente meu saudoso pai ficaria honrado em conhecer e apoiar esse trabalho. E no que eu puder ajudar, fico à disposição.

Franz K. Pereira.

Instituto Amigos do Patrimônio Cultural Fluminense disse...

Prezado Franz.

Ficamos muito agradecido pelas suas sinceras e simpatizantes palavras de apoio ao nosso trabalho.

Tentei entrar em contato com você (posso chamá-lo assim? para solicitar a utilização do seu desenho da São Bernardino. Embora não tenha conseguido, divulguei seu desenho, mas por questão de ética coloquei abaixo do mesmo, no nosso blog, a referência do seu blog (aliás, diga-se de passagem, muito bom!).

Contei para o professor Ney Alberto, que faz parte do nosso grupo, sobre o seu blog. Ele ficou muito contente.

Estamos planejando a realização de um evento sobre a Baixada Fluminense até o final do ano. Gostaria de poder conhecê-lo melhor para conversarmos sobre o nosso grupo, que pretendemnos transformar no futuro INSTITUTO AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL FLUMINENSE, além de convidá-lo para participar do mesmo.

Se puder, entre em contato comigo.

Abraços,

CLARINDO
Amigos do Patrimônio Cultural Fluminense
(21) 3769-4221 ou 2224-6184 ou 2242-6619 ou
9765-6038
amigosdopatrimonio@gmail.com

Ademario Ribeiro disse...

Poranga nheeng Tupi! Catupiri poranduba! Antes de ser Brasil - O Tupi era uma líb=ngua de comunicação entre as tribos. Depois de 1500 continuou assim. Depois de Pombal, babau. Precisamos retomar o Tupi que inclusive falamos no dia a dia sem se dar conta!

Parabéns!!!

Ademario Ribeiro